Xenócrates

Candelabro aceso para Xenócrates da Calcedônia (406-314 A.C.)



Filósofo grego. Nascido na Calcedônia, Xenócrates tornou-se discípulo de Platão, a quem acompanhou à Sicília, sucedendo Speusipo, após o suicídio deste, na direção da Academia.

Ali, sofreu influências de Pitágoras, mas esforçou-se para conciliá-las aos ensinamentos de seu mestre.

Escreveu "O tratado da morte" e, aos 86 anos, para se manter coerente com suas idéias, suicidou-se, ingerindo veneno.

Eduard von Kayserling

Candelabro aceso para Eduard von Kayserling (1855 - 1918)


Escritor e novelista alemão. Nasceu a 4 de maio de 1855 em Courtland. Morreu a 28 de setembro de 1918, em Munique. Oitavo filho de Eduard von Kayserling Sênior e Théophile von Rummel, das tradicionais famílias báltico-germânicas fixadas nas Westfália desde o século XV, quando trabalharam de vassalos para os cavaleiros teutônicos e depois ativos nos serviços diplomático e militar dos impérios russo e prussiano.

Passou a infância nas propriedades da família, local que lhe servia de fundo à futura produção literária, iniciada aos 32 anos. Variada e extensa, de suas obras mais conhecidas, vale destacar:

  • Fraulen Rosa Herz: Eine Kleinstadliebe Erzahlung (1887).
  • Die Dritte Stierge: Sozialer Roman (1892).
  • Ein Fruhllingsopfer: Schauspiel in drei Alfzugen (1900).
  • Der dumme Hans: Trauerspiel in vier Aufzugen (1901).
  • Beate und Mairele: Schloßgeschichte (1903).
  • Peter Havel: Drama in funf Aufzugen (1904).
  • Benignens Erlebnis: Zwei Akte (1906).
  • Wellen (1911).
  • Am Sudhang: Erzalung (1916).
  • Furstnnen: Erzalung (1917).
  • Im stillen Winkel (1918).
Discreto e tímido, vivia sempre calado sobre sua vida pregressa em Dorpat e Viena, onde contraiu uma doença venérea que com o tempo o levaria à cegueira e paralisia. Em 1886 seu pai morrera e ele retornara às propriedades da família. Porém, em 1893, sinais alarmante de sua doença apareceram. 

Com a morte da mãe no ano seguinte, mudou-se com as irmãs solteiras Henriette e Elise para Munique, onde se reunia nos café com o grupo dos Schwabing Bohème, tendo admiradores devotos como o dramaturgo Max Halbe, o ensaísta-filósofo Rudolf Kassner e o poeta Rainer Maria Rilke (1875 - 1926).

Ainda assim, o dinheiro lhe faltou, a saúde piorou e a situação política com as hostilidades entre Alemanha e Rússia o fez perder as propriedades familiares de Courtland. Nessa época, foi retratado por   Lovis Corinth, e a excelente pintura já o mostra precocemente envelhecido (imagem no início do texto).

Tentando restaurar a saúde, viajou com as irmãs por Veneza, Roma e Nápoles, entretanto em 1907, quando sua carreira de autor se estabilizou, ficou cego. Perdeu as duas irmãs, passou a ser cuidado por outra mais nova (Hedwig) e sinais de paralisia começaram a ocorrer. 

Desesperado, com a idade de 62 anos, a 28 de setembro de 1918 suicidou-se com um tiro no peito.

Tamiki Hara

Candelabro aceso para Tamiki Hara (1905 - 1951)


Escritor e romancista japonês. Nasceu em Hiroshima, em 1905. Morreu a 13 de março de 1951, na mesma cidade. Sobrevivente do bombardeio atômico de Hiroshima (1945), sofrendo dos efeitos da radioatividade, distúrbios mentais e extrema depressão, em novembro de 1951 atirou-se sob um trem. 


Trecho de "Cartas de Hiroshima".


Naquela manhã de 6 de agosto de 1945 ,levantei-me pelas oito horas. Na noite anterior haviam soado dois alarmas antiaéreo, mas não caíram bombas...
De repente levei uma pancada na cabeça e tudo escureceu a minha volta.Gritei e levantei os braços. Na escuridão só ouvia um barulho parecido com um uivo de uma grande tempestade. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Até o meu grito parecia ter vindo de outra pessoa.

Quando em meu redor as coisas ficaram novamente visíveis, embora não muito claras a principio, tive a sensação de estar no meio de uma grande catástrofe. Entre as densas nuvens de pó apareceu um pedaço de céu azul, logo seguido de outros.
Pequenas chamas começaram a sai do edifício ao lado, um depósito de produtos farmacêuticos.Já era tempo de sair de onde eu estava junto com K., consegui atravessar os escombros.

Nuvens de fumaça subiam em turbilhão das ruínas das casas.Chegamos a um lugar onde o calor das chamas era insuportável, mas encontramos outra rua que levava a ponte de Sakai: O número de refugiados que afluía para este lugar aumentava a todo instante. Fui andando na direção do palácio Izumi. A vegetação pisoteada pelos que fugiam tinha formado uma espécie de passarela.Quase todas as árvores tinham sido decapitadas.

A principio cada um pensava que só a sua casa tinha sido atingida, mas quando saía via que tudo tinha sido destruído. E o mais estranho era que, apesar de todos os edifícios estarem arrasados, não se via nenhuma cratera que as bombas geralmente formam. No outro lado do rio, incêndios que pareciam estar apagando recrudesciam com maior violência.

De repente no céu,acima do rio, via uma massa de ar de incrível transparência deslocando-se contra a corrente. Mal tive tempo de gritar ´um furacão´ , e um vento terrível nos atingiu. Arvores e arbustos tremiam violentamente; alguns eram arrancados pela raiz a atirados ao ar , de onde caiam como flechas no medonho caos que se formara. Tinha-se a impressão de que o reflexo verde de um inferno horrível estava sendo projetado sobre a Terra.

Após a passagem do furacão uma espécie de crepúsculo escureceu o céu. Foi ai que encontrei meu irmão mais velho. Seu rosto parecia coberto por uma fina camada de tinta cinzenta. As costas de sua camisa estavam em tiras, expondo um enorme ferimento parecido com queimadura do Sol.

Enquanto procurávamos um barco ao longo do estreito cais, vi muitas pessoas completamente desfiguradas.Estavam por toda parte na beira do rio ,suas sombras refletidas na água. Seus rostos estavam tão entumecidos que era difícil distinguir homem de mulher. Os olhos eram meras fendas eo lábios estavam monstruosamente feridos. Estavam quase agonizantes e seus corpos em chagas e desnudos.Quando passávamos perto deles, alguns nos pediam com voz fraca quase inaudível : Um pouco d’água! ou ´Por favor me ajude!

Um grito lancinante me fez parar.Dentro do rio, perto da margem ,estava o cadáver nu de uma jovem ,e perto dele duas mulheres encolhidas num degrau. As cabeças delas pareciam aumentadas na metade do tamanho normal, e suas feições estavam horrivelmente deformadas. Pelo comprimento dos cabelos meio queimados, percebi que eram mulheres.

Por fim encontramos um barco e remamos para a outra margem. Estava quase escuro quando chegamos lá . Deste lado também havia muitos feridos. Um soldado agachados à beira do rio me pediu um pouco de água quente e, apoiando-se em meu ombro, caminhou penosamente pela areia.´Seria, melhor ter morrido”, disse de repente. Concordei intimamente, e naquele momento, sem que tivéssemos trocado uma só palavra, percebi que nós dois sentíamos a mesma raiva incontrolável diante da insensatez de tudo que víamos.
Sentado numa mesa, um homem com a cabeça enorme e queimada. Bebia água quente numa xícara de chá. Seu rosto parecia feiro de grãos de soja pretos. Seus cabelos tinham sido cortados horizontalmente na altura das orelhas.Mais tarde, ao tanto ver vitimas de queimadura com o cabelo assim, acabei por compreender que todos tinham a cabeleira queimada abaixo da aba do chapéu.

Quando caiu a noite, a cena ficou ainda mais aterradora. Gritos vinham de todos os lados: ´Água ! Água!´. De repente soou um alarma antiaéreo. Havia uma sirene intacta em algum lugar.Seu gemido varou a noite. Rio abaixo, o tremeluzir das chamas mostrava os focos de incêndio.

No quarteirão do templo inúmeras pessoas gravemente feridas se espalhavam pelo chão. Não havia sequer uma árvore ou uma barraca para abriga-las. Fizemos uma cobertura para nós, escorando algumas tábuas numa parede e ali nos abrigamos. Durante 24 horas eu e mais cinco pessoas noa amontoamos nesse pequeno espaço. A dois metros havia uma cerejeira ainda com umas poucas folhas. Sob ela estavam caídas duas meninas com uniforme escolar. Seus rostos estavam queimados e enegrecidos, e as costas magras expostas ao Sol. Elas imploravam água. Tinham chegado a Hiroxima no dia anterior para ajudar na colheita e caíram vítimas desta terrivel calamidade. O sol estava se pondo...
Antes mesmo do amanhecer ouvíamos a nossa volta o murmúrio de preces; morria gente sem parar .As duas meninas morreram assim que o sol raiou.

Pelo meio dia o alarma soou de novo. Ouvia-se um zumbido no céu (5). Morria gente a todo instante e ninguém vinha recolher os corpos. Desorientados e perplexos, os vivos vagueavam entre os mortos. Já podíamos ver as ruínas das ruas principais. Um espaço vazio cinzento se estendia sob um céu de chumbo. Somente as ruas, pontes e os braços do rio eram ainda reconhecíveis. Em meio a tudo isso, corpos hediondamente inchados e mutilados. O inferno tinha se tornado realidade.

Tudo que era humano tinha sido suprimido. Os rostos dos mortos eram todos iguais, como se usassem uma mesma máscara. A dor fazia os membros dos agonizantes se agitarem em contrações curiosamente ritmadas até que paravam de vez. Quilômetros de fios e incontáveis fragmentos de postes que os sustentavam espalhavam-se pelo chão, retorcidos e emaranhados. Ver um bonde de rodas para cima e todo queimado ou um cavalo morto grotescamente inchado dava-nos a impressão de estar no meio de um quadro surrealista.

Atravessamos uma extensão de ruínas que parecia não ter fim. O cinturão de casas arrasadas ia até os subúrbios. Só depois de Kusatsu foi que encontramos campos verdes e não devastados. A visão de libélulas em vôo gracioso comoveu-nos profundamente. Enveredamos então pela longa e monótona estrada para a aldeia de Yawata, onde chegamos a noite. De manhã tivemos que enfrentar novamente a dura realidade. Os feridos não estavam melhorando e os que nada haviam sofrido enfraqueciam dia a dia pela falta de comida.

Dias depois chegou um menino. Era meu sobrinho, que depois morreu em conseqüência dos ferimentos recebidos. Ele estava na escola quando a bomba explodiu, e na hora em que o clarão ofuscante iluminou a sala ele se atirou embaixo da carteira. teto ruiu e soterrou-o ,mas ele conseguiu sair por um buraco em companhia de alguns colegas. A maioria das crianças morreu instantaneamente.

Meu sobrinho fugiu para o monte Hiji com os amigos. Enquanto subia o monte ele vomitava um liquido branco. Uma semana depois de sua chegada à aldeia o cabelo começou a cair, e em dois dias ele estava completamente calvo. Já corriam boatos de que ninguém que perdesse os cabelos e sangrasse pelo nariz conseguiria sobreviver. Mas meu sobrinho conseguiu sobreviver por muito tempo apesar da gravidade de seu estado...

Ao anoitecer atravessei a ponte e me dirigi através do campo para a olaria que existe as margens do Yawata. Uma libélula preta secava as asas numa rocha. Banhei-me no rio aspirando profundamente. Olhando ao longe eu via o sopé da montanha escurecido pelo crepúsculo enquanto os cumes distantes ainda faiscavam ao Sol poente. Poderia ser uma paisagem de sonho. Acima de mim o céu era de um silencio absoluto. Tive a impressão de só haver chegado ao mundo após a explosão da bomba atômica.
 
  
Imagens:


Monumento a Tamiki Hara.

Link recomendado:
Wikipédia (em inglês): http://en.wikipedia.org/wiki/Tamiki_Hara

Lobo da Costa

 Candelabro aceso para Francisco Lobo da Costa 
(1853 - 1888)



Jornalista, poeta e escritor brasileiro. Nasceu a 12 de julho de 1853, em Pelotas, Rio Grande do Sul. Morreu a 19 de junho de 1888, na mesma cidade. Filho de humilde família gaúcha, ficou órfão na infância, tendo de começar a trabalhar logo cedo. Aos catorze anos, foi escrevente de cartório e depois telegrafista no posto de correios local. Escreveu seus primeiros versos aos doze anos e, aos dezesseis, iniciou-se no jornalismo, publicando o primeiro livro: Espinhos d'alma (romance, 1872). Na imprensa, atuou e colaborou nos seguintes jornais: Ecos do sul; Castália; Trovador; Lanterna; Diário de Pelotas; Investigador; Gazeta Mercantil; 11 de Julho; Tribuna e Fronteira.

Em 1874 mudou-se para São Paulo pensando ingressar na Faculdade de Direito, o que não conseguiu, mas publicou seus Lucubrações (1874), único livro de poesia editado em vida.

Mudou-se para Florianópolis (SC) onde serviu como oficial de gabinete do governo, porém, em 1876 estava de volta a Pelotas, fundando jornais de vida curta. Ali, apaixonou-se por uma jovem da burguesia pelotense (Saturnina Elvira), mas por imposição da família dela, ambos foram impedidos de se ver. Magoado e humilhado, começou a beber e dedicar-se exclusivamente à poesia, viajar e a colaborar com pequenos e escandalosos jornais do interior. 

Em total desregramento e com o alcoolismo exacerbado, retornou a Pelotas, sendo recolhido à Santa Casa. Contudo, certa noite, burlou a vigilância dos enfermeiros e fugiu, embrenhando-se nos bares para se embriagar e se suicidar, atirando-se num fosso. A Wikipédia, no entanto, diz o seguinte sobre sua decadência e morte: "Em 1885, é internado pela primeira vez e, a partir daí, sua vida se divide entre hospitais e bares. No dia 18 de junho de 1888, deixa sem autorização a Santa Casa de Misericórdia de Pelotas e se dirige a uma região de bares chamada de Santa Cruz. No fim da tarde de inverno, é visto em tal região bebendo. É encontrado morto na manhã seguinte por um carroceiro, estando nu, caído numa vala tomada pelas águas da chuva. Ladrões haviam roubado seus pertences e suas roupas. Faleceu aos trinta e quatro anos."

Na cronologia de "Obra Poética: Lobo da Costa" nós encontramos o que se segue:

"1887 - Hospitalizado várias vezes, preocupa a sociedade que, consternada, mobiliza-se para auxiliá-lo, o Grêmio dos Lunáticos, uma associação de jovens intelectuais, elabora o opúsculo Charitas, cuja venda reverte em benefício do poeta. Mesmo no hospital ainda faz versos e recebe os amigos que vêm prestar homenagem ao mais popular dos poetas do Rio Grande.

 1888 - Permanece no hospital, desde o fim do ano anterior, sem interromper sua produção literária. A 18 de junho, Lobo da Costa sai do hospital sem destino certo. Procuram-no, mas não o encontram. É uma noite fria e chuvosa de inverno. Na manhã seguinte foi encontrado morto, ao relento, na Rua Santa Cruz, hoje Lobo da Costa. Sua morte noticiada em vários jornais repercute em toda a Província. Neste mesmo ano sai a primeira edição de Auras do Sul, compilada por Francisco de Paula Pires que reuniu e publicou grande parte de sua extensa obra, disseminada nos jornais e revistas da época."


Postumamente surgiram as obras:

- Auras do Sul  (1888)
- O Filho das Ondas  (s/d)
- Flores do Campo  (1905)
- Dispersas  (1910)
- As Melhores Poesias  (1927)

Em 2010 foi encontrado um manuscrito de sua peça em três atos "27 de Janeiro ou os Blancos em Jaguarão" (comédia). 


Algumas poesias:

Adeus
À sombra do Salgueiro
(Fragmentos)
Adeus! eu vou partir.  Por que soluças?  
Não brilha o pranto, a dor, à luz da festa, 
Nem a rosa, por pálida e modesta, 
Deve pender a fronte ainda em botão... 
Que eu te diga este adeus — manda o destino! 
Eu sou náufrago vil, sem norte ou guia, 
Açoitado por ventos de agonia
Nas cavernas fatais do coração.


Chorarás no momento em que eu te deixe,
Ou, quando perto eu for da tua herdade,
Passarás uma noite com saudade;
Mas a aurora trará mimos a flux...
E desperta de um sonho que te aflige,
Os passos sulcarás d'almo folguedo,
Esquecida daquele que tão cedo,
Sem amparo caiu vergado à cruz.


Trará o esquecimento alívio às dores;
Muitos dias talvez virão por este,
E das bagas do pranto que verteste
Brotarão os jasmins de um novo amor...
Cantarão no teu lar os passarinhos,
Muitas flores virão com a primavera,
E de mim ficará de uma outra era
Agudo espinho de saudosa dor.

Bem sei... há de custar-te a minha ausência,
Enquanto a ela tu não te acostumas.
Mas, ah! que nunca choram as espumas,
Quando soltas das vagas vão além!
É fatal, bem eu sinto, este momento!
Lisonjeia-me a dor do que não valho...
Olha: o manso gatinho no borralho,
Parece que a me olhar chora também.

Teu cãozinho de neve que tu amas,
No latido gentil, como que implora
Que eu não faça chorar sua senhora,
Ou pedindo-me em prantos, que eu não vá...
Mas quem sabe, se um dia, quando os tempos
De novo me trouxerem a estas plagas,
Não serás, ó cãozinho que me afagas,
O primeiro que então me morderá!

De lágrimas se funde o esquecimento
Com que algema o sentido mais dileto,
Não há, por mais gentil que seja o afeto,
Quem se possa eximir àquela essência.
É gelo que entibia as flores da alma, 
É fogo que consome alto destino.
E já vês, ó meu anjo peregrino,
Que não deves chorar a minha ausência.

Irei por sobre as ondas desfolhando
As flores da saudade, uma por uma;
Como elas, que fogem sobre a espuma,
Quem me diz onde irei? onde pairar?
E tu ficas à sombra de teus lares,
Sorrindo de ventura, anjo celeste,
E eu, quem sabe! se à sombra de um cipreste
Num profundo dormir — sem despertar

O tempo que corrói a pedra bruta,
Também destrói os frutos da memória.
Mal fora se, na vida transitória,
Não sucedesse ao golpe a cicatriz.
— Tudo arrasta da vida a vaga irosa,
O Sol que amanheceu baixa ao poente...
Só há uma saudade permanente,
— A saudade da mãe e a do infeliz.

Nunca viste a donzela lacrimosa
Curvada no ladrilho mortuário,
Beijando o esquife negro e solitário
Em que dorme o despojo maternal?
E dois anos após... nem tanto ainda!
Da festa no esplendor vir, orgulhosa,
Passando muitas vezes junto à lousa,
Sem lembrar-se do anjo do casal?

Já viste a triste mãe que um berço embala, 
Velando uma criança adormecida,
Consagrando-lhe esperança, amor e vida, 
Capaz de se finar se ela morrer;
E após, se a idade veste-a de esplendores,
Tornar-se seu algoz, ser seu patíbulo,
E ir vendê-la nas portas do prostíbulo,
Como rês inocente — a quem mais der?!
Nunca viste o mendigo esfarrapado
Beijar a mão bondosa que o ampara,
E depois, se a fortuna se lhe aclara,
Como Pedro negar ao próprio Cristo?
Nunca viste o impudor — calcando o pejo,
A dor desafiando — gargalhadas,
Em troca de carícias — punhaladas!
Nunca viste?  Pois eu já tenho visto.
Só guarda uma saudade quem por fado
Teve a dor do proscrito, a do abandono.
Assim, se eu não morrer, se o eterno sono
Não for além dormir, pomba adorada,
Lembrarei teus encantos e meiguices,
Chorarei de saudade — embora rias,
Cobrindo com meu manto de agonias
Os espinhos da cruz que me foi dada.
E se um dia nas praias do futuro
Rolar o meu cadáver de descrente,
Sepulta-o junto à margem onde a corrente
Só muda quando em fluxo recresce...
Onde os salgueiros têm as mesmas folhas
E é sempre a mesma viração sombria,
Onde só muda o Sol quando anoitece.
___


                              MINHA TERRA

                              Lá, na minha terra, quando
                              O luar banha o potreiro,
                              Passa cantando o tropeiro,
                              Cantando, sempre cantando;
                              Depois, avista-se o bando
                              Do gado que muge, adiante;
                              E um cão ladra bem distante,
                              Lá, bem distante, na serra;
                              Nunca foste à minha terra?!

                              Enfrena, pois, teu cavalo,
                              Ferra a espora, alça o chicote
                              E caminha a trote, a trote,
                              Se não quiseres cansá-lo.
                              Ainda não canta o galo,
                              É tempo de viajares.
                              Deixarás estes lugares,
                              Iras vendo novas cenas
                              Sempre amenas, muito amenas.

                             O laranjal reverdece,
                             E ao disco argênteo da lua,
                             Logo os olhos te aparece
                            A estrela deserta e nua.
                            ………………………………………………

Na Cela

Talvez tu leias meus versos
Ao longe, onde quer que estejas
E neles de manso vejas
Uns traços de quem chorou
Como do fúnebre arbusto
No triste e medroso galho
Treme uma gota de orvalho
Depois que a noite passou
Talvez tu leias e saibas
Do meu infortúnio a mágoa
E os olhos bem rasos d’água
Te fiquem por compaixão
E procures no silêncio
Da tua tristonha herdade
Abafar uma saudade
Que nasce do coração!
Mas, se soubesse que a parca
Roçou-me a fronte já fria
Uma lágrima sombria
Deixa dos olhos rolar
Mas não fales – não blasfemes
Contra os rigores da sorte
Pois bem sabes só a morte
Nos podia separar.

___


Serenata

Acorda... escuta: os passarinhos cantam...
Olha: lá surge no deserto a luz;
É o sol vermelho que fugiu do leito,
Banhando a fronte nos regatos nus.

Ouve... Não ouves!... o tropeiro fala
Treme a viola na canção gentil,
E as borboletas despertando fogem
Dos seios frescos das cecéns de abril.

Não durmas... Olha como o mar palpita,
E a branca espuma silenciosa vai!
– A espuma é o anjo que dormiu na rede
E o mar o acorda murmurando: Amai!

Amor! a onda que descai serena...
Amor! as notas da cantiga vâ!
Amor! a infância, – as orações do berço...
Amor! o sono da gentil irmã.

Eia... desperta! Quanta luz se espalha!...
a aurora volta recamando o céu...
Serás a rosa ao suspirar das brisas;
Acorda... escuta... vem ouvir, – sou eu!...

___

Epitáfio

No túmulo de D. Carolina Roxo

Dorme aqui na sombria soledade,
Quem viveu, sem viver, a flor mais bela!...
- Vós que passais, deixai uma saudade!...
Auras da noite - suspirai por ela!

___

Obra Poética:



Galeria de fotos:



Busto em homenagem ao poeta.

(imagem do manuscrito encontrado de sua comédia em três atos)

(arte de Bruno Campelos)

Links Recomendados.

Trung Trac & Trung Nhi

Candelabro aceso para as irmãs Trung (século I d.C.)



Revolucionárias e heroínas vietnamitas. Aturam por volta de 39 a 43 d.C., quando então morreram. Pertencentes à nobreza norte-vietnamita, encabeçaram grande rebelião contra o domínio chinês da dinastia Han e, por curto período de tempo, ali estabeleceram um estado verdadeiramente autônomo.

Sua determinação e liderança tornaram-nas lendárias e são citadas por estudiosos como testemunho da posição de respeito e liberdades das mulheres na antiga sociedade vietnamita.

Trung Trac, a irmã mais velha, era viúva de Thi Sach, lorde de Chau Dien, no norte do Vietnã, assassinado por um general chinês por conspirar com outros lordes para derrubar a tirania da China sobre seu país. Em 39 d.C., assumindo então a liderança do movimento, Trung Trac, sua irmã Trung Nhi e outros membros da aristocracia marcharam para Lien Lau, forçando o comandante chinês a fugir.

Decorrido um ano, elas e seus aliados já dominavam 65 cidadelas do norte e em Me Linh, no delta do rio Vermelho. Então se autoproclamaram rainhas de um estado independente que se estendia do sul da China até o local atual de Hue.

Porém, sem apoio dos camponeses, nem suprimentos e com soldados inabilitados, as corajosas irmãs não eram adversárias para as experientes tropas chinesas do General Ma Yüan (Ma Vien) que as derrotou, primeiro em Lang Bac, perto da atual Hanói. Partiram com sua legião e se retiraram para Hat Mon, agora Son Tary, onde foram abatidas decisivamente.

Após quatro anos de lutas, humilhadas incapazes de encarar o fracasso, ambas cometeram suicídio, afogando-se na junção dos rios Vermelho e Day.

Cultuadas, em sua homenagem elevou-se em Hanói o pagode Hai Ba (duas irmãs) e uma avenida no centro da cidade Ho Chi Minh (anteriormente Saigon) leva seus nomes.