Tamiki Hara

Candelabro aceso para Tamiki Hara (1905 - 1951)


Escritor e romancista japonês. Nasceu em Hiroshima, em 1905. Morreu a 13 de março de 1951, na mesma cidade. Sobrevivente do bombardeio atômico de Hiroshima (1945), sofrendo dos efeitos da radioatividade, distúrbios mentais e extrema depressão, em novembro de 1951 atirou-se sob um trem. 


Trecho de "Cartas de Hiroshima".


Naquela manhã de 6 de agosto de 1945 ,levantei-me pelas oito horas. Na noite anterior haviam soado dois alarmas antiaéreo, mas não caíram bombas...
De repente levei uma pancada na cabeça e tudo escureceu a minha volta.Gritei e levantei os braços. Na escuridão só ouvia um barulho parecido com um uivo de uma grande tempestade. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Até o meu grito parecia ter vindo de outra pessoa.

Quando em meu redor as coisas ficaram novamente visíveis, embora não muito claras a principio, tive a sensação de estar no meio de uma grande catástrofe. Entre as densas nuvens de pó apareceu um pedaço de céu azul, logo seguido de outros.
Pequenas chamas começaram a sai do edifício ao lado, um depósito de produtos farmacêuticos.Já era tempo de sair de onde eu estava junto com K., consegui atravessar os escombros.

Nuvens de fumaça subiam em turbilhão das ruínas das casas.Chegamos a um lugar onde o calor das chamas era insuportável, mas encontramos outra rua que levava a ponte de Sakai: O número de refugiados que afluía para este lugar aumentava a todo instante. Fui andando na direção do palácio Izumi. A vegetação pisoteada pelos que fugiam tinha formado uma espécie de passarela.Quase todas as árvores tinham sido decapitadas.

A principio cada um pensava que só a sua casa tinha sido atingida, mas quando saía via que tudo tinha sido destruído. E o mais estranho era que, apesar de todos os edifícios estarem arrasados, não se via nenhuma cratera que as bombas geralmente formam. No outro lado do rio, incêndios que pareciam estar apagando recrudesciam com maior violência.

De repente no céu,acima do rio, via uma massa de ar de incrível transparência deslocando-se contra a corrente. Mal tive tempo de gritar ´um furacão´ , e um vento terrível nos atingiu. Arvores e arbustos tremiam violentamente; alguns eram arrancados pela raiz a atirados ao ar , de onde caiam como flechas no medonho caos que se formara. Tinha-se a impressão de que o reflexo verde de um inferno horrível estava sendo projetado sobre a Terra.

Após a passagem do furacão uma espécie de crepúsculo escureceu o céu. Foi ai que encontrei meu irmão mais velho. Seu rosto parecia coberto por uma fina camada de tinta cinzenta. As costas de sua camisa estavam em tiras, expondo um enorme ferimento parecido com queimadura do Sol.

Enquanto procurávamos um barco ao longo do estreito cais, vi muitas pessoas completamente desfiguradas.Estavam por toda parte na beira do rio ,suas sombras refletidas na água. Seus rostos estavam tão entumecidos que era difícil distinguir homem de mulher. Os olhos eram meras fendas eo lábios estavam monstruosamente feridos. Estavam quase agonizantes e seus corpos em chagas e desnudos.Quando passávamos perto deles, alguns nos pediam com voz fraca quase inaudível : Um pouco d’água! ou ´Por favor me ajude!

Um grito lancinante me fez parar.Dentro do rio, perto da margem ,estava o cadáver nu de uma jovem ,e perto dele duas mulheres encolhidas num degrau. As cabeças delas pareciam aumentadas na metade do tamanho normal, e suas feições estavam horrivelmente deformadas. Pelo comprimento dos cabelos meio queimados, percebi que eram mulheres.

Por fim encontramos um barco e remamos para a outra margem. Estava quase escuro quando chegamos lá . Deste lado também havia muitos feridos. Um soldado agachados à beira do rio me pediu um pouco de água quente e, apoiando-se em meu ombro, caminhou penosamente pela areia.´Seria, melhor ter morrido”, disse de repente. Concordei intimamente, e naquele momento, sem que tivéssemos trocado uma só palavra, percebi que nós dois sentíamos a mesma raiva incontrolável diante da insensatez de tudo que víamos.
Sentado numa mesa, um homem com a cabeça enorme e queimada. Bebia água quente numa xícara de chá. Seu rosto parecia feiro de grãos de soja pretos. Seus cabelos tinham sido cortados horizontalmente na altura das orelhas.Mais tarde, ao tanto ver vitimas de queimadura com o cabelo assim, acabei por compreender que todos tinham a cabeleira queimada abaixo da aba do chapéu.

Quando caiu a noite, a cena ficou ainda mais aterradora. Gritos vinham de todos os lados: ´Água ! Água!´. De repente soou um alarma antiaéreo. Havia uma sirene intacta em algum lugar.Seu gemido varou a noite. Rio abaixo, o tremeluzir das chamas mostrava os focos de incêndio.

No quarteirão do templo inúmeras pessoas gravemente feridas se espalhavam pelo chão. Não havia sequer uma árvore ou uma barraca para abriga-las. Fizemos uma cobertura para nós, escorando algumas tábuas numa parede e ali nos abrigamos. Durante 24 horas eu e mais cinco pessoas noa amontoamos nesse pequeno espaço. A dois metros havia uma cerejeira ainda com umas poucas folhas. Sob ela estavam caídas duas meninas com uniforme escolar. Seus rostos estavam queimados e enegrecidos, e as costas magras expostas ao Sol. Elas imploravam água. Tinham chegado a Hiroxima no dia anterior para ajudar na colheita e caíram vítimas desta terrivel calamidade. O sol estava se pondo...
Antes mesmo do amanhecer ouvíamos a nossa volta o murmúrio de preces; morria gente sem parar .As duas meninas morreram assim que o sol raiou.

Pelo meio dia o alarma soou de novo. Ouvia-se um zumbido no céu (5). Morria gente a todo instante e ninguém vinha recolher os corpos. Desorientados e perplexos, os vivos vagueavam entre os mortos. Já podíamos ver as ruínas das ruas principais. Um espaço vazio cinzento se estendia sob um céu de chumbo. Somente as ruas, pontes e os braços do rio eram ainda reconhecíveis. Em meio a tudo isso, corpos hediondamente inchados e mutilados. O inferno tinha se tornado realidade.

Tudo que era humano tinha sido suprimido. Os rostos dos mortos eram todos iguais, como se usassem uma mesma máscara. A dor fazia os membros dos agonizantes se agitarem em contrações curiosamente ritmadas até que paravam de vez. Quilômetros de fios e incontáveis fragmentos de postes que os sustentavam espalhavam-se pelo chão, retorcidos e emaranhados. Ver um bonde de rodas para cima e todo queimado ou um cavalo morto grotescamente inchado dava-nos a impressão de estar no meio de um quadro surrealista.

Atravessamos uma extensão de ruínas que parecia não ter fim. O cinturão de casas arrasadas ia até os subúrbios. Só depois de Kusatsu foi que encontramos campos verdes e não devastados. A visão de libélulas em vôo gracioso comoveu-nos profundamente. Enveredamos então pela longa e monótona estrada para a aldeia de Yawata, onde chegamos a noite. De manhã tivemos que enfrentar novamente a dura realidade. Os feridos não estavam melhorando e os que nada haviam sofrido enfraqueciam dia a dia pela falta de comida.

Dias depois chegou um menino. Era meu sobrinho, que depois morreu em conseqüência dos ferimentos recebidos. Ele estava na escola quando a bomba explodiu, e na hora em que o clarão ofuscante iluminou a sala ele se atirou embaixo da carteira. teto ruiu e soterrou-o ,mas ele conseguiu sair por um buraco em companhia de alguns colegas. A maioria das crianças morreu instantaneamente.

Meu sobrinho fugiu para o monte Hiji com os amigos. Enquanto subia o monte ele vomitava um liquido branco. Uma semana depois de sua chegada à aldeia o cabelo começou a cair, e em dois dias ele estava completamente calvo. Já corriam boatos de que ninguém que perdesse os cabelos e sangrasse pelo nariz conseguiria sobreviver. Mas meu sobrinho conseguiu sobreviver por muito tempo apesar da gravidade de seu estado...

Ao anoitecer atravessei a ponte e me dirigi através do campo para a olaria que existe as margens do Yawata. Uma libélula preta secava as asas numa rocha. Banhei-me no rio aspirando profundamente. Olhando ao longe eu via o sopé da montanha escurecido pelo crepúsculo enquanto os cumes distantes ainda faiscavam ao Sol poente. Poderia ser uma paisagem de sonho. Acima de mim o céu era de um silencio absoluto. Tive a impressão de só haver chegado ao mundo após a explosão da bomba atômica.
 
  
Imagens:


Monumento a Tamiki Hara.

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Wikipédia (em inglês): http://en.wikipedia.org/wiki/Tamiki_Hara